Economia: Visão além das expectativas.

Entrevista exclusiva com Renata Barreto

VISÃO ALÉM DAS EXPECTATIVAS

 

Atualmente não se fala em outra coisa além da crise. Até mesmo aquelas pessoas que, em outros tempos, diziam não ler e pesquisar sobre economia ou política, de uns tempos para cá, sentiram a necessidade evidente de se informarem, de buscarem respostas para suas dúvidas e aflições.

E no meio de um bombardeio de informações e opiniões diversas, além de muita “desinformação”, não é de se estranhar que muitas pessoas estejam perdidas, sem entender o que, de fato, está acontecendo no país e no mundo. Sabem que a crise existe, mas não o que ela realmente significa.

Neste contexto, pessoas que falam sobre economia e política com clareza e conhecimento ganham a atenção do público em geral. E foi assim com a economista Renata Barreto, que hoje é vista como uma formadora de opinião, tendo mais de 45 mil seguidores no Facebook.

Com 31 anos, Renata é economista e empresária, atua há quase 13 anos no mercado de capitais, com experiência em trading, estruturações e advisory nos mercados doméstico e internacional, e é a convidada especial desta edição do Luxor Residenz para falar sobre a atual situação do país e sobre quais são as perspectivas para o futuro.

 

LUXOR CONCEPT: Como a crise brasileira atingiu o mercado financeiro e qual a situação atual?

 

Renata Barreto: O mercado financeiro e de capitais é um espelho das relações econômicas de um país e acaba precificando nos ativos as expectativas em relação ao que vai acontecer. Na época das eleições, por exemplo, a qualquer sinal de que Dilma se reelegeria, a bolsa de valores caía e o dólar subia, sendo esta última uma variável bastante sensível à credibilidade do país, enxergando os fluxos de capitais saindo e entrando.

A crise que acertou o país em cheio foi responsável pelo aumento do desemprego, da redução da renda real do trabalhador, pela redução da produção e consequente queda do crescimento do Brasil que, no ano passado, teve queda do PIB de -4,05%, número bastante significativo, além de termos perdido o chamado Investment Grade, que é uma nota de risco que dizia que éramos um local seguro de investimento.

Com a clara falta de empenho do governo em fazer o que era necessário, a credibilidade do país caiu, assim como a confiança dos investidores. Quando a possibilidade de impeachment passou a ser maior, o mercado começou a se recuperar na expectativa de que o novo governo viesse a tomar as medidas de ajuste necessárias.

Michel Temer, apesar de não ser nem de longe o ideal, trouxe uma equipe econômica de peso que tem capacidade para colocar o Brasil de volta nos trilhos, então por isso, desde que ele assumiu, a bolsa de valores subiu e o dólar caiu bastante, atingindo no mês de junho o menor patamar em quase um ano, depois de chegar a ficar acima dos R$4,00. 

 

LUXOR CONCEPT: Atualmente, não é raro ver famílias – até mesmo aquelas que sempre tiveram bom poder aquisitivo – tentando reduzir gastos, reclamando da atual situação do mercado...  Quais são suas dicas para as pessoas/famílias (das diferentes classes sociais) enfrentarem este período?

 

Renata Barreto: A primeira coisa é avaliar qual situação cada pessoa está vivendo. No Brasil é comum tentarmos viver de otimismo e esquecermo-nos da realidade, o que deixa absolutamente impossível conseguir enfrentar os problemas de frente e chegar a uma solução. Muitos não conseguem fazer uma conta simples de orçamento por puro desconhecimento. Então eu sugiro que, em primeiro lugar, as pessoas analisem seus ganhos, seus gastos, onde que estão os supérfluos e o que dá para cortar, pesquisar bastante antes de comprar, etc.

Outra coisa que acho que pode se tirar de bom numa crise, apesar de tudo, é tentar inovar. O ser humano tem uma capacidade incrível de empreender e criar, mas muitas vezes fica amarrado pela rotina e não tem tempo de pensar nisso. De muitas crises surgiram boas ideias, então talvez seja a hora de tirar do papel algo que possa ser mais do que um simples “bico”.

 

LUXOR CONCEPT: E no caso específico das empresas, como elas devem enfrentar este período?

 

Renata Barreto: A situação das empresas é específica de acordo com o setor de cada uma, da situação financeira prévia, da quantidade de funcionários, etc. Não existe um conselho mágico para todas. Infelizmente o que temos visto é uma grande quantidade de empresas fechando pela crise que diminuiu a demanda pelos seus produtos ou serviços, além de grande burocracia para conseguir mantê-la aberta e funcionando dentro da lei. Não existe “almoço grátis”, como diria Milton Friedman, portanto, se a empresa está tendo prejuízo, não tem muito o que ser feito a não ser corte de gastos, que pode vir de várias formas. Para as empresas conseguirem se manter numa situação difícil como essa, é preciso renegociar dívidas, caso tenha, reduzir ao máximo os custos e às vezes até a margem de lucro para que a empresa passe pela turbulência. Infelizmente, muitos empresários, principalmente os micro e pequenos, acabam tendo que fechar suas portas numa situação como a de hoje.

 

LUXOR CONCEPT: Quais são as perspectivas para o futuro próximo?

 

Renata Barreto: É difícil saber o que vai acontecer daqui para frente, o que temos são apenas expectativas e esperança. O governo anterior deixou o país com diversos problemas para enfrentar de uma vez e, o novo governo que ainda é interino, apesar de não ser de longe o ideal, contém uma equipe econômica forte. Isso é o mais importante considerando que são políticas econômicas responsáveis que ajudam na geração de emprego, na estabilidade, na volta do crescimento do país, etc. Algumas medidas começaram a ser tomadas, mas ainda bem de leve, então ainda é cedo para dizer se o futuro irá melhorar em breve. Acredito que ainda deveremos sentir desgastes provocados por essa crise por um tempo razoável, principalmente porque perdemos algo muito difícil de se recuperar rápido: credibilidade.

 

LUXOR CONCEPT: Em relação às taxas de desemprego, especificamente, quais são as perspectivas?

 

Renata Barreto: O desemprego subiu rapidamente no último ano e deve continuar subindo por algum tempo. As empresas, como disse em pergunta anterior, não têm muita escolha a não ser fazer corte de gastos, e uma das primeiras coisas é diminuir o quadro de funcionários. É matemática, não tem milagre. Enquanto não conseguirmos fazer o país voltar a crescer – e isso depende de muitas coisas – o desemprego continuará a ser preocupante.

Outra coisa interessante de mencionar é que a estatística oficial do IBGE não considera algumas pessoas desocupadas como desempregadas, por exemplo, se a pessoa não estiver procurando emprego, se estiver recebendo bolsa-família ou seguro desemprego, não é considerada como desempregada. Então, na verdade, a quantidade de pessoas efetivamente sem emprego é muito maior do que os mais de 11 milhões divulgados em dados oficiais.

 

LUXOR CONCEPT: É possível prever ou estimar as oscilações do câmbio para o curto prazo?

 

Renata Barreto: Câmbio é uma das variáveis mais sensíveis e, portanto, mais difíceis de se prever. Quando o dólar estava próximo dos R$2,00 e não tínhamos graves problemas ou turbulências, a moeda era mais estável e oscilava num range aceitável. A partir de 2014, com o agravamento da crise interna e outras questões de ordem externa como aumento de juros nos EUA e desaceleração do crescimento da China, o dólar subiu de forma brusca e chegou no ano passado a bater assombrosos R$4,24 no intraday. Desde então voltou a cair e, com a possibilidade de impeachment cada vez mais próxima (Dilma está afastada e terá o julgamento final em Agosto), caiu ainda mais. No atual momento dessa entrevista, o dólar está operando pouco acima dos R$3,20. Fundamentalmente falando, acho que o dólar deveria se manter entre R$3,20 - R$3,30, já que apesar da boa notícia da troca de governo que pode trazer bons resultados para nossa economia, os problemas são enormes. Como o mercado tende a antecipar os movimentos e precificar as possibilidades, o dólar pode chegar até R$3,10, alguns grafistas falam de até R$3,00, o que no meu entendimento é uma boa janela de compra da moeda e também para voltar a fazer investimentos em dólar, muito importante para diversificação e proteção da carteira.

 

LUXOR CONCEPT: Atualmente você é vista como uma autoridade/formadora de opinião quando o assunto é economia. Como você tem lidado com isso?

 

Renata Barreto: Economia é minha vida e escrever é minha paixão. Aconteceu por acaso de começar a ter mais relevância nas redes sociais e fiz questão de manter minha posição forte em relação a esse assunto, assim como política. Para mim é fundamental manter a autenticidade e passar a verdade para as pessoas que, em sua maioria, não buscavam até então informações a respeito desses assuntos. É bastante desgastante, por um lado, pois acabo ficando muito ligada no computador e celular, mas cada pessoa que me passa uma mensagem positiva de que hoje entende melhor de economia por minha causa, ou que passou a se interessar mais por isso, ler mais a respeito, etc., serve de estímulo para eu continuar esse trabalho.

 

LUXOR CONCEPT: Sua postura combativa com pessoas e artistas que defendem determinados políticos leva consequências para sua vida pessoal? Como é isso no dia a dia? Já foi hostilizada alguma vez?

 

Renata Barreto: Nunca fui hostilizada publicamente, apenas através das redes sociais mesmo, que não me intimidam. No começo é difícil saber lidar com isso, entender que não dá para comprar todas as brigas e nem responder a todos os comentários. Meu instinto era de debater com todo mundo, mas hoje sei que a grande maioria que faz isso na minha página não está interessada em nada construtivo. Por outro lado, já é comum ser reconhecida em locais que frequento e, até hoje, sempre de forma positiva. Essa história de mexer com políticos e artistas ao mesmo tempo é uma bomba, pois você lida com fanatismo de ambos os lados. Infelizmente as pessoas não conseguem separar o artista do formador de opinião e, muitas vezes, o segundo não tem posições coerentes.

 

LUXOR CONCEPT: Quais são os projetos de Renata Barreto para o futuro?

 

Renata Barreto: Há dois anos atuo em consultoria própria de investimentos e projetos, portanto meu tempo é bastante flexível. Hoje também escrevo para alguns sites, como o Infomoney, por exemplo. Quero escrever dois livros, tenho ideia de alguns documentários, é possível que faça um canal de vídeos sobre economia e política, assim como um site que reúna meus comentários em canais diversos.

 

LUXOR CONCEPT: Não fosse a corrupção e tanto dinheiro desviado, poderíamos afirmar que a situação econômica do país seria totalmente diferente nesse momento?

 

Renata Barreto: Fatalmente seria, mas não só de corrupção se faz uma crise econômica. O problema no Brasil foi também de má gestão e irresponsabilidade em todos os níveis. A questão é que essas políticas foram feitas de forma que a população tivesse a impressão de que a qualidade de vida estava melhorando, mas como as medidas criaram uma realidade artificial que não poderia durar muito tempo, hoje temos famílias regredindo de classe, com dívidas, muitos desempregados, etc. A meu ver, as políticas populistas foram propositadamente ampliadas em demasia para ter o voto dessas pessoas e continuarem no poder. Houve falta de planejamento sim, mas também muita má-fé. As estatais estão todas afetadas com desvios gigantescos e muita propina. Esse grande imbróglio entre corrupção e irresponsabilidade nos levaram à pior crise desde os anos 30.

 

LUXOR CONCEPT: Para fechar esta entrevista com chave de ouro, que mensagem gostaria de deixar aos leitores Luxor?

 

Renata Barreto: Gostaria de colocar que sempre há coisas boas para se tirar de uma crise e, nesse caso, aprendemos que não se pode deixar tudo para os outros resolverem, criamos mais consciência política e entendemos mais sobre economia, assuntos antes tidos como chatos ou até irrelevantes. Com essa vontade de aprender mais e poder, de fato, fazer algo para mudar o que achamos errado, poderemos sair da crise política e econômica esperando um Brasil realmente melhor, com pessoas mais engajadas e preocupadas com o futuro. A crise econômica uma hora vai passar, e o que fica é esse legado para os cidadãos. 



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